Que diabos é água?
Ainda sobre o abandono do pensamento crítico
Estão dois peixinhos nadando e, por acaso, encontram um peixe mais velho nadando na direção oposta, que acena para eles e diz: “Bom dia, rapazes! Como está a água?”. Os dois peixinhos continuam nadando por um tempo e então, finalmente, um deles olha para o outro e pergunta: “Que diabos é água?”.
Em 2005, o escritor David Foster Wallace discursou para os formandos do Kenyon College com um discurso que hoje é um de seus textos mais lidos. É uma peça atemporal em que argumenta que as realidades mais óbvias, ubíquas e importantes são frequentemente as mais difíceis de perceber.
Vinte anos depois, nadamos nós em uma água lamacenta, e a parábola ganha uma leitura mais óbvia: estamos imersos em ambientes controlados por corporações bilionárias que filtram o que vemos, desejamos, acreditamos. Plataformas às quais terceirizamos nossas descobertas, onde acostumamos a reagir muito mais do que refletir.
Wallace alertava sobre nossa “configuração padrão natural” – a tendência automática de interpretarmos tudo pela lente do ego. Hoje, essa configuração foi amplificada por tecnologias que nos entregam exatamente aquilo que esperamos ver, criando bolhas de confirmação que reforçam nossas certezas.
Bolhas? É preciso ampliar a metáfora: vivemos em uma espuma. Milhares de microespaços de crença e desejo, de escolhas pré-selecionadas, de interesses pré-mapeados e conexões sugeridas. Nadamos na superfície de uma espuma turva, iludidos de que são águas claras pelas quais enxergamos com profundidade.
Indisponíveis para o inesperado
Falamos tanto em inovação e tão pouco em descoberta. Existe uma diferença fundamental entre encontrar algo e receber algo. O encontro pressupõe movimento próprio, curiosidade ativa, disposição para o inesperado. Receber é passivo – você está parado enquanto alguém decide o que merece sua atenção.
Na espuma, estamos em recepção constante. Os algoritmos nos poupam do trabalho de procurar, mas nos roubam a possibilidade de descobrir. E a descoberta, especialmente a vertical, que demanda fôlego, é a base de qualquer pensamento original.
Que diabos é água
A genialidade da parábola de Wallace está em sua simplicidade. Os peixes não conseguem perceber a água porque estão completamente imersos nela. Para eles, a água não é uma substância, mas a própria condição da existência.
Nossa “água” é feita de notificações, feeds infinitos, respostas automáticas, decisões terceirizadas a algoritmos, preferências moldadas por recomendações. É a substância invisível que condiciona cada aspecto de nossa experiência.
A alienação dos peixes de Wallace não nos é igualmente inofensiva. Nossa relevância enquanto ser pensante depende do cultivo do pensamento crítico. É incrivelmente difícil, mas há caminhos.
Eles não passam mais por dominar metodologias - coisa que a IA já nos entrega tão bem. É uma demanda mais da ordem do desejo de descoberta, de vontade de potência, de menos volume e mais densidade.
Isto é água.
Melissa Resch,
Diretora criativa da VOZ Colab
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